D. Sebastiana
Mônica Sette Lopes
Doutora em Filosofia do Direito.
Juíza do Trabalho.
Professora da Faculdade de Direito da UFMG.

       No meio da ladeira, paro. Uma casa branca. As janelas azuis. Subo a escada tortuosa. Pelo vidro, vejo D. Sebastiana e seu crochet. Um corredor entre duas portas. É preciso bater forte e chamar pelo nome. “Menina, este vento e esta porta! A gente nunca sabe quando é ele ou alguém que bate.” Na sala, o retrato de João Antônio, os móveis poucos. O rangido do chão de tábua corrida. Pálida. D. Sebastiana e seu abraço. Ela se queixa da perna. “Foi burrice minha. O médico mandou eu tirar radiografia, mas não fui. Deu no que deu.” E mostra, entre conformada e triste, a perna entortada para o lado. “Às vezes, ela endurece e implica de não andar.” D. Sebastiana e a passada da vida. As histórias de João Antônio e da infância misturam-se, tropegamente, confundindo a organização do tempo. “Lá, em Mendanha, eu aprendi renda de bilro e crochet e tudo. Aí, aqui, em Diamantina, eu costurei muita camisa de homem.” E apressa o café. Na xícara, o registro. Bodas de Ouro. “Eu e João Antônio fomos casados 61 anos. Tinha mão boa, ele. Tudo o que achava na rua trazia para casa e plantava.” Entra Helena com o café. Helena e seu sorriso amplo, livre de dentes. Helena que conta casos. A voz com o timbre da herança negra. A língua diferente. Um dialeto na sonoridade. Difícil de entender. “Bom, mesmo é ficar no quintal. É plantar e comer o que plantou.” E desaparece atrás do muro rosa que divide o mundo daquele paraíso confuso de raízes, troncos, folhas e flores. “Vem cá, menina. Vem vê o pé de urucum.” Explica, com doçura, o enigma do vermelho da tintura. A arte de colher, abrir, catar, desvendar o segredo que colore rubramente os molhos. E começam a apanhar o agrado. Cravo, alfazema, canela, alecrim, manjericão - palavras que, de repente, saem das músicas e histórias da infância e vêm se juntar num buquê de folhas e de cheiros. Minhas mãos aceitam, orgulhosamente, o fardo da amizade. De volta à sala, D. Sebastiana desfila seus licores em translúcida profusão. “Adivinhe do que é, menina?” É figo. Fácil sentir o grude doce. Traz um calor qA?ue se desdobra nos afagos dos olhos dela. Há um minuto, dois, quatro em que nada se fala. Respiro devagar para não espantar o silêncio. Pela janela, entra o barulho dos instrumentos tocados no Conservatório que funciona na casa ao lado. Os sons misturados compõem uma música imprevisível. “A música não me incomoda, minha filha. Desde que fui operada deste ouvido, não escuto mais nada e do outro, só um pouco. Ouço a música, mas é longe.” D. Sebastiana e seus sentidos. E volta a desfiar sua vida. “Menina, vivo namorando a cabeça branca dos outros.” D. Sebastiana e suas mesclas. Helena entra com duas toras de lenha para o fogão. “Ela está caducando mas é boa. Já criou meus netos e agora cuida dos bisnetos.” O silêncio volta com sua eloqüência. É preciso ir embora furtivamente. “Leve as lembranças dessa velha candongueira e o agradecimento.” Pelo tudo e pelo nada. Por qualquer e todas as coisas. Na rua, o ar é frio. A serra persiste sólida formando um quadro colorido com as casinhas incrustadas. D. Sebastiana e seu bordado. “Para ficar bestando, enquanto não aparece ninguém para conversar.” D. Sebastiana e o tempo.